domingo, 16 de maio de 2010

Eu costumava amar tão bem...

Só, por favor, devolva esse meu dom
Que sem ele nada sou, nada vivo
Sem ele sobrexisto

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Inverno

Frio tem gosto de saudade
E a vida deixa de ser de verdade.
Chuva é pingo de emoção
Vento é arrastão.
E as mãos embranquecem
Os abraços aquecem
E a gente dorme melhor.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Alter Ego


Só teus próprios dramas podem contradizer tua ciência
Quando todo o habitual não curar tua carência
Verás que chamar por ti mesmo não adianta
Que não és tão cortesã, nem tão santa

Sobretudo, não deposita em ti tua esperança
Abraça teu travesseiro como criança
Que ele é mais fiel a ti do que tua própria mente
Que ele não te descarta, racionaliza e nem sente

Esquece poder chamar teu cérebro no desespero
Esquece o tiro que sempre achou ser certeiro
Tudo o que era garantido um dia cai
E tu descobrirás em ti mesmo a pessoa que mais te trai

terça-feira, 23 de março de 2010

Meu caso de amor com uma velha

Já passava das 23:00 e eu estava sozinha em frente a faculdade, esperando meu amigo me buscar para sairmos. Fumava. Ela apareceu. Carregava sacos, de algum reciclável ou coisa do tipo. Era pequena e eu só notei sua presença - do outro lado da rua - quando me gritou pedindo por um cigarro. Claro, respondi. E ela atravessou a rua correndinho. Estranhamente de perto parecia menor ainda e mais magra. Tinha olhos de dor. Expressão de cansaço.

- Moça, cê sabe onde fica Sarandi?
- Nossa, não sei te dizer, não.
- O moço falou que aqui eu tô perto do cemitério...
- É, se você for reto aqui vai dar lá no cemitério...
- Eu não quero cemitério não, cruz credo, quero ir pra Sarandi, acho que o homê me falou o caminho errado...

Nunca tive tanta vontade de saber uma direção. Passei algum tempo olhando ao redor, como que tentando me lembrar para onde ficava Sarandi. Mas eu não sabia. Impossível lembrar-se do que não se sabe. Fui interrompida por minha memória: Ela havia pedido um cigarro. Tirei o maço da bolsa e dei um cigarro a ela, que me agradeceu. Tragou e me olhou por um instante.

- Cê tá saindo da escola?
- Estou sim.
- Que série cê tá?
- Segundo ano, da faculdade.

Ela sorriu. E emudecemos por alguns instantes.

- Que bom. Deve ser bom estudar...

Eu entristeci, mas sorri.

- Eu vô andá a noite toda...

Calei. E ocupei-me tanto em olhar nos olhos dela e sentir meus milhares de batimentos cardíacos acelerados que, sinceramente, não faço idéia de qual foi minha expressão facial no momento.

- Mais tá bom né, Deus sabe o que faiz.

E sorriu. E eu sorri para ela. Mas não aguentamos mais que alguns segundos. E nossos sorrisos deram lugar a interrogações. Ela de forma mais sutil, por sorte eu já havia chegado tão dentro do seu olhar que consegui perceber. E lá estava uma imensa interrogação de quem já estava cansando de repetir para si mesma que o tal deus sabe o que faz sem ter certeza se ele sabe mesmo.

Agradeceu novamente. E voltou a andar.

Na metade da outra quadra parou. E meu olhar, que a seguia, encontrou o dela. E ficamos ali paradas nos olhando durante todos os minutos que sucederam a chegada do meu amigo. E durante aqueles minutos nós nos amamos, a uma quadra - e uma vida - de distância nós nos amamos. Eu a tive como filha e ela me teve como mãe. Eu sentia o coração dolorido dela, bem como ela sentia o meu. Eu me senti insignificante frente a ela e a sua dor, bem como ela se sentiu insignificante frente a mim e meu tamanho. Mas sabíamos que tínhamos o mesmo coração. Tivemos certeza naqueles minutos que tínhamos exatamente o mesmo coração. E a mesma dúvida. Deus sabe o que faz?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis.

Cecília Meireles

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ah, mas que cansaço me dá desvendar este corpo, não física, sequer sentimentalmente. Desvendá-lo psicologicamente, analisá-lo tal qual quem busca entender uma fórmula matemática. Ah, mas que cansaço! De onde vem tal paradoxo? Qual o princípio? Se os dedos que acariciam são os mesmos que apontam e o hedonismo do amor puro transforma-se no amor romântico, oh céus, que cansaço! Nunca vi razão tão má! Nunca vi racionalidade tão oposta ao sentimento ocilando no mesmo corpo de forma exteriorizada. Ora, mas que dificuldade pode haver na simplicidade de se amar? Do carinho e do contato. Mas não é óbvio que contato completo diz muito mais do que o olhar de fora? Olhar positivista. Olhar superiorizado. Não há elevação alguma nos julgamentos, na necessidade de moldar, no incômodo com as falas e formas alheias. Não, não há. Há elevação no amor. E há amor no amor. Só nele, em nada mais, sem nada mais.
Sem mais.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Da série: Obrigada Deus, por ter me feito invisível

Hoje fui comer uma salada de frutas no restaurante do Cesumar. Ela vinha com leite condensado e cheia de chantily. Ao coloca-la (de forma nada sutil) sobre a mesa, metade do chantily caiu na mesa. Enquanto eu comia o resto da salada de frutas fui pegando e comendo o chantily caído com os dedos.