quinta-feira, 8 de julho de 2010

Santíssima Trindade

Se há algo em que acredito são em seres humanos. Seus corpos, almas e espíritos. Acredito em suas paixões, suas bondades, seus amores e loucuras, mas acredito mais ainda em seus pecados. Especificamente em seus pecados. Seus pecados físicos e sexuais, seus pecados românticos, seus pecados contra si mesmos e contra toda a humanidade. São estes que os fazem seres humanos, e são neles que eu acredito. Acredito em todo o caos dos segredos, dos desejos e dos vícios, em toda a escuridão que está na alma de todos nós. Eu acredito. Acredito pois na eterna união do corpo, da alma e do espírito, completamente indissociáveis. Portanto, se o pecado é a carne, saiba que não só sua carne, mas sua alma a pede. Se todas as fibras do seu corpo pecam, saiba que assim peca seu espírito. Logo, saiba que cada pecado é um pouco de você. Não há deslize, não há fraqueza. Só há você. A partir disso não há então porque ter arrependimento, sendo que todos os pecados são apenas um grito que ecoava na alma e no espírito e que em algum momento teve que transbordar corpo afora.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Mar e Sol


Gira Gira Gira Gira Gira Gira Gira Gira Sol
Um girassol nos teus cabelos
Batom vermelho
Girassol

Alceu Valença - Girassol

terça-feira, 1 de junho de 2010

Acabo de me tocar que a coisa que mais sinto (e mais sentirei conforme o passar dos anos) falta é da irresponsabilidade. Engraçado, sempre foi o que mais me chamaram atenção. O que mais me disseram para deixar. E, de fato, tenho deixado. E quanto mais deixo mais percebo, que ela não só faz parte de mim, mas também me faz feliz. Sinceramente, ser irresponsável me faz feliz. Sinto saudades de aproveitar poéticamente as noites de insônia, ao invés de me desesperar com elas. Sinto falta de buscar novos conhecimentos inúteis educacional ou profissionalmente, mas que sempre me fizeram sentir melhor. Sinto falta de tentar - sempre em vão - desenhar, pintar e fabricar novos objetos. Sinto falta de irresponsabilidade, do desnecessário, de minhas futilidades que, no fundo, sempre me faziam ser alguém melhor, ao menos a meus olhos.

domingo, 16 de maio de 2010

Eu costumava amar tão bem...

Só, por favor, devolva esse meu dom
Que sem ele nada sou, nada vivo
Sem ele sobrexisto

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Inverno

Frio tem gosto de saudade
E a vida deixa de ser de verdade.
Chuva é pingo de emoção
Vento é arrastão.
E as mãos embranquecem
Os abraços aquecem
E a gente dorme melhor.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Alter Ego


Só teus próprios dramas podem contradizer tua ciência
Quando todo o habitual não curar tua carência
Verás que chamar por ti mesmo não adianta
Que não és tão cortesã, nem tão santa

Sobretudo, não deposita em ti tua esperança
Abraça teu travesseiro como criança
Que ele é mais fiel a ti do que tua própria mente
Que ele não te descarta, racionaliza e nem sente

Esquece poder chamar teu cérebro no desespero
Esquece o tiro que sempre achou ser certeiro
Tudo o que era garantido um dia cai
E tu descobrirás em ti mesmo a pessoa que mais te trai

terça-feira, 23 de março de 2010

Meu caso de amor com uma velha

Já passava das 23:00 e eu estava sozinha em frente a faculdade, esperando meu amigo me buscar para sairmos. Fumava. Ela apareceu. Carregava sacos, de algum reciclável ou coisa do tipo. Era pequena e eu só notei sua presença - do outro lado da rua - quando me gritou pedindo por um cigarro. Claro, respondi. E ela atravessou a rua correndinho. Estranhamente de perto parecia menor ainda e mais magra. Tinha olhos de dor. Expressão de cansaço.

- Moça, cê sabe onde fica Sarandi?
- Nossa, não sei te dizer, não.
- O moço falou que aqui eu tô perto do cemitério...
- É, se você for reto aqui vai dar lá no cemitério...
- Eu não quero cemitério não, cruz credo, quero ir pra Sarandi, acho que o homê me falou o caminho errado...

Nunca tive tanta vontade de saber uma direção. Passei algum tempo olhando ao redor, como que tentando me lembrar para onde ficava Sarandi. Mas eu não sabia. Impossível lembrar-se do que não se sabe. Fui interrompida por minha memória: Ela havia pedido um cigarro. Tirei o maço da bolsa e dei um cigarro a ela, que me agradeceu. Tragou e me olhou por um instante.

- Cê tá saindo da escola?
- Estou sim.
- Que série cê tá?
- Segundo ano, da faculdade.

Ela sorriu. E emudecemos por alguns instantes.

- Que bom. Deve ser bom estudar...

Eu entristeci, mas sorri.

- Eu vô andá a noite toda...

Calei. E ocupei-me tanto em olhar nos olhos dela e sentir meus milhares de batimentos cardíacos acelerados que, sinceramente, não faço idéia de qual foi minha expressão facial no momento.

- Mais tá bom né, Deus sabe o que faiz.

E sorriu. E eu sorri para ela. Mas não aguentamos mais que alguns segundos. E nossos sorrisos deram lugar a interrogações. Ela de forma mais sutil, por sorte eu já havia chegado tão dentro do seu olhar que consegui perceber. E lá estava uma imensa interrogação de quem já estava cansando de repetir para si mesma que o tal deus sabe o que faz sem ter certeza se ele sabe mesmo.

Agradeceu novamente. E voltou a andar.

Na metade da outra quadra parou. E meu olhar, que a seguia, encontrou o dela. E ficamos ali paradas nos olhando durante todos os minutos que sucederam a chegada do meu amigo. E durante aqueles minutos nós nos amamos, a uma quadra - e uma vida - de distância nós nos amamos. Eu a tive como filha e ela me teve como mãe. Eu sentia o coração dolorido dela, bem como ela sentia o meu. Eu me senti insignificante frente a ela e a sua dor, bem como ela se sentiu insignificante frente a mim e meu tamanho. Mas sabíamos que tínhamos o mesmo coração. Tivemos certeza naqueles minutos que tínhamos exatamente o mesmo coração. E a mesma dúvida. Deus sabe o que faz?