Houvesse Carolina sido avisada do mundo para qual viria antes de nascer, com certeza escolheria outro. Mas não foi e veio. Veio no outono que é chique sem ser doloroso. Assim que veio Carolina observava o rosto das pessoas ao seu redor e não os entendia. Mesmo depois de ir para casa, de aprender a andar, falar, questionar e negar. Aliás, foi exatamente aí que começaram os maiores problemas e foi aí que ela começou a entender ainda menos tudo aquilo que a cercava. Cada vez que dizia a palavra “Por que?” ouvia de volta uma resposta meia-boca, a ausência de resposta ou pior que isso, ouvia para parar de perguntar tanto. Queria descobrir, saber, entender, ir a fundo em tudo que a cercava, não se contentava apenas em olhar, ela queria mais. Cada vez que dizia a palavra “Não” era um Deus que nos acuda, parecia que ela havia infringido uma lei nacional, quem sabe até mundial, parecia que era a pior criança do mundo. E quando rolava um “Não” seguido de um “Por que?” então não havia nada que assustasse mais a pobre garota. Afinal para aquele “Não” ser tão condenado, devia haver um “Porque”, certo? Bem, não era o que parecia. Carolina crescia enquanto sua cabeça dava cada vez mais nós e ela acabava se perdendo e pensando: que se tivesse sido avisada do mundo para qual viria antes de nascer, com certeza teria escolhido outro. Até que em todo esse processo de crescimento, um belo dia Carolina descobriu algo que mudaria sua vida para sempre: A Máscara. Ah quanta magia havia naquela máscara! Era inexplicável a reação positiva das pessoas ao seu redor quando ela estava usando a máscara, ao contrário de tudo o que tinha provado até então. Santa Máscara! A Máscara era formada basicamente de observação, aceitação e concordância. Claro que ao longo da vida Carolina fez questão de incrementar a Máscara com alguns atributos que a deixaram ainda mais bonita como maquiagens, etiquetas e boa postura, mas a base continuava a ser a mesma. A garota amou tanto o poder daquele novo instrumento que decidiu nunca mais tira-lo e assim foi se formando a menina toda bonita, querida, educada, alienada e castrada. Hoje Carolina e sua Máscara vivem felizes, em uma bela casa, com um belo emprego. Nos fins de semana vão ao Mc Donald’s, assistem comédias românticas, lêem livros de auto-ajuda e sentem algumas dores que o médico diz serem causadas por estresse. Não gostam de política, choram antes de dormir e ontem Carolina deixou sua filha Daiana de castigo devido a um desagradável “Não” seguido de um “Por que?” que a tola menina ousou falar. Ah, deixe só até Daiana encontrar uma máscara e poder desfrutar de toda a sua felicidade e paz.
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