sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Chegou em casa encharcada. Da chuva, de ódio, de saudade e de algo mais (que ela ainda não sabe o nome). Tudo tomou conta do seu ser assim que saiu da universidade, aquele local onde tentam diariamente castrá-la, transtorna-la e transforma-la em formiga, sendo que ela sabe que nasceu mesmo para ser elefante (coisa que só quem leu Cléo e Daniel entende). Veja só que a chuva não vem só acompanhada de frio e um pouquinho de medo de ser esquecida alí. Chuva traz consigo muito mais do que as pessoas pensam, para aqueles que permitem a ela faze-lo, claro, ao invés de ficar se escondendo para não estragar o cabelo nem pegar um resfriado. Isso porque chuva é vida. Chuva é coisa que se digere. Vem caindo devagarzinho e despertando o que está latente, transmitindo assim dez vezes mais conhecimento do que aquela sala de aula, com aqueles livros adaptados a quem compra, a quem vende, ao mundo que o circula, nenhum deles bate mesmo de frente, nenhum deles passa de uma tentativa maior de adaptação. Ela vai se deixando molhar por fora, e lubrificar por dentro, para que as emoções corram com maior facilidade, para que os pensamentos circulem mais livremente, e assim vem vindo um por um. Trata-se de um momento poético, quase filosófico, depende claro de a qual filósofo estamos nos referindo, embora ela saiba que nenhum deles é melhor que ela mesma. E naquela angústia ela organiza uma ou outra coisa das que acordou sentindo hoje, das que sentiu ontem e as que pode vir a sentir que se foda. Inclusive, quase descobre o nome daquele algo mais. Ela pára, na chuva e no tempo. Está tudo estruturado, é mais fácil criar vida quando se sente vida. A possível pneumonia preocupa, mas não mais do que o medo. Medo de que quando aquele momento devida solitária passar ela perca tudo de novo, perca a lubrificação, se seque da chuva externa e interna e volte a ser mais uma formiga. Um único segundo de autoconhecimento não é para qualquer um, descobrir significados e nomes de algos mais exige muito mais do que as pessoas costumam estar dispostas a dar. Vai pensando nas leis que a cercam e se quer mesmo cumpri-las, pensa no conceito de bonito, de agradável, de responsável, de inteligente e vê, finalmente vê: que o objetivo de todos eles é apenas excluir o que há de mais bonito nela mesma, ou seja: Ela mesma. A chuva acaba, o carro chega, enrigeceu novamente as estruturas, a chuva seca, volta a ser deserto, volta a ser formiga. E o algo mais, volta a ser incógnita.
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Um comentário:
Sentir-se inadequada, parte de nada do que existe por aí.
Oh, Dels. Sei exatamente como é.
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